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SOBRE A LOUCURA E OUTROS MODOS E MEIOS DE IR E VIR DAS ALDEIAS XINGUANAS

Amanda Horta

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão sobre algumas narrativas de indígenas do Território Indígena do Xingu (TIX) sobre os eventos que os conduziram de suas aldeias à cidade de Canarana, estado de Mato Grosso. Afastando-me do intuito de explicar, generalizar ou contextualizar esse fenômeno migratório tão difundido na América indígena, o objetivo é descrever certas agências, influências e afetos mobilizados nesses deslocamentos, explorando o que interessa aos indígenas do TIX quando narram essas histórias. Como veremos, a questão está ligada à asserção da legitimidade do deslocamento e da possibilidade de retornar à aldeia de origem. A etnografia realizada junto aos indígenas na cidade mostra que a possibilidade de os indígenas voltarem para suas aldeias está relacionada a três fatores: o desejo pessoal, a capacidade de se acostumar outra vez à vida entre parentes e o interesse da comunidade em recebê-lo novamente. O terceiro fator inclui a perspectiva da comunidade de parentes na reflexão aqui proposta e convida a pensar o deslocamento a partir da temática da ação e influência na América indígena. A questão se desestabiliza quando trazemos para a análise o tema da loucura: como veremos é comum que os indígenas descrevam sua presença na cidade como resultado da ação deletéria de outrem, que se expressa em seus corpos como loucura e dispara, assim, um movimento marcado pela ausência de referência e de intencionalidade. Argumento pela associação entre esses estados alterados do ser e esses movimentos descontrolados, mostrando como os deslocamentos decorrentes da loucura podem disparar transformações espaciais e ontológicas, trazendo paralelos interessantes com as descrições ameríndias sobre os encontros com seres outros que humanos na floresta. A possibilidade do retorno à aldeia, nestes casos, não se ancora na mesma tríade de fatores. Como falar em razões para mudar para a cidade se, nos contextos indígenas, as “causas” são “resultados de ações de pessoas separadas de quem as executa”? Demonstrando os limites de uma abordagem que se satisfaz em enumerar razões, esse texto explora a produtividade de outros vieses da pesquisa realizada junto a indígenas em cidades para a expansão do corpo de conhecimentos antropológicos sobre a criatividade xinguana.


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DOI: http://dx.doi.org/10.18542/amazonica.v17i1.16776



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