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Qualidade pós-colheita do cacau nativo (Theobroma cacao) na Amazônia paraense: tradição e técnica em sistemas ribeirinhos

Maria José de Sousa Trindade, Maria do Perpétuo Socorro Progene Vilhena, Adriene Mayra da Silva Soares, Catarina de Sousa Sanches, Francisco de Sousa Sanches Junior, Maria Maricélia Félix da Silva

Resumo

Este artigo analisa a qualidade pós-colheita do cacau nativo (Theobroma cacao L.) cultivado por agricultores familiares ribeirinhos nas ilhas de várzea do Baixo Tocantins (PA), integrando saberes tradicionais e técnicas aprimoradas como estratégia para o fortalecimento da bioeconomia amazônica. A palavra ribeirinho deriva do latim ‘ripa’ (relativo à margem de um rio), que na região amazônica virou sinônimo de famílias ou comunidades que vivem às margens de rios e igarapés. O sustento dessas famílias se dá, em grande parte, através da agricultura familiar (cacau e açaí, principalmente), da aquisição de produtos florestais não madeireiros, como a extração de óleos vegetais como andiroba (Carapaguianensis Aubl.), copaíba (Copaifera sp.) e pracaxi (Pentaclethra macroloba (Willd.) Kuntze) e frutos nativos, além da pesca artesanal, atividades fundamentais para a segurança alimentar e geração de renda. A produção de cacau ocorre predominantemente em áreas de fertilidade natural média a alta, manejadas de forma integrada aos ecossistemas locais. A pesquisa abrangeu todas as etapas do pós-colheita, da colheita à armazenagem, com foco na avaliação de dois sistemas de fermentação (paneiro e cocho quadrado) e dois métodos de secagem (secagem na ponte e casa de secagem). Foram analisadas variáveis físico-químicas, como temperatura, pH e teor de umidade das amêndoas. Os resultados demonstraram que o cocho quadrado oferece melhores condições para a fermentação, enquanto a casa de secagem apresenta maior eficiência no processo de secagem. Conclui-se que a articulação entre práticas tradicionais e boas práticas tecnológicas contribui significativamente para a melhoria da qualidade das amêndoas, agregando valor ao produto final e promovendo benefícios socioeconômicos às comunidades ribeirinhas.


Palavras-chave

cacau nativo; várzea; fermentação; secagem; bioeconomia amazônica; agricultura familiar.


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DOI: http://dx.doi.org/10.18542/ncn.v28i3.20176

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