Escrita em deslocamento: memória, ritual e experiência diaspórica na poética de Lúcia Aizim / Writing in displacement: memory, ritual, and diasporic experience in the poetics of Lúcia Aizim
Resumo
Resumo: Este artigo investiga a presença da tradição judaica e da experiência migrante na poética de Lúcia Aizim, com foco na construção de uma escrita marcada pelo deslocamento, pela errância e pela condição diaspórica do sujeito lírico. A partir da análise da obra Alma pastora das coisas (1974), examina-se como a poeta elabora a figura do estrangeiro exilado, desterrado de sua origem por circunstâncias históricas e existenciais adversas, e situado em uma zona liminar entre o pertencimento e a exclusão. Nesse sentido, a poesia de Aizim revela uma identidade heterogênea e fragmentada, constituída na tensão entre memória ancestral, experiência migrante e reinscrição simbólica no espaço brasileiro. O estudo compreende a escrita poética como espaço de mobilidade transcultural, no qual elementos da tradição judaica, como o rito, a memória coletiva e a experiência do exílio, dialogam com imagens, paisagens e afetos do cotidiano brasileiro. Conforme assinala Berta Waldman, a singularidade da poética de Aizim reside justamente na articulação entre herança cultural judaica e referências tropicais, produzindo uma linguagem que ressignifica o lugar do estrangeiro no contexto nacional e desloca fronteiras identitárias fixas. Amparado teoricamente em contribuições de Berta Waldman (2016; 2019), Seligmann-Silva (2007) e Arnold Van Gennep (2011), entre outros, o artigo analisa o cotidiano e o ritual como dispositivos simbólicos que estruturam a memória diaspórica e a experiência de errância. Assim, a poesia de Lúcia Aizim configura-se como uma escrita de resistência e reinvenção, na qual o deslocamento não se apresenta apenas como perda, mas como força criadora e forma de reexistência no campo literário brasileiro.
Palavras-chave: Literatura judaico-brasileira; Lúcia Aizim; Ritos de margem; Memória; Identidade.
Abstract: This article investigates the presence of Jewish tradition and migrant experience in the poetics of Lúcia Aizim, focusing on the construction of a writing marked by displacement, wandering, and the diasporic condition of the lyrical subject. Based on an analysis of the work Alma pastora das coisas (1974), it examines how the poet elaborates the figure of the exiled foreigner, banished from their origin by adverse historical and existential circumstances, and situated in a liminal zone between belonging and exclusion. In this sense, Aizim's poetry reveals a heterogeneous and fragmented identity, constituted in the tension between ancestral memory, migrant experience, and symbolic reinscription in Brazilian space. The study understands poetic writing as a space of transcultural mobility, in which elements of Jewish tradition, such as rite, collective memory, and the experience of exile, dialogue with images, landscapes, and affects of Brazilian daily life. As Berta Waldman points out, the uniqueness of Aizim's poetics lies precisely in the articulation between Jewish cultural heritage and tropical references, producing a language that redefines the place of the foreigner in the national context and shifts fixed identity boundaries. Theoretically supported by contributions from Berta Waldman (2016; 2019), Seligmann-Silva (2007), and Arnold Van Gennep (2011), among others, this article analyzes the everyday and ritual as symbolic devices that structure diasporic memory and the experience of wandering. Thus, Lúcia Aizim's poetry is configured as a writing of resistance and reinvention, in which displacement is presented not only as loss, but as a creative force and a form of re-existence in the Brazilian literary field.
Keywords: Brazilian Jewish Literature; Lúcia Aizim; Marginal Rites; Memory; Identity.
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DOI: http://dx.doi.org/10.18542/apalavrada.v0i29.20200
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