Margens: Revista Interdisciplinar

CORPOS CAMBIANTES EM “A CIDADE DOS PIRATAS”: É POSSÍVEL UMA PEDAGOGIA “LAERTE” PARA ABALAR AS COLONIALIDADES E OS FASCISMOS IMPOSTOS AOS GÊNEROS?

Fabiana Aparecida de CARVALHO, Adalberto Ferdnando INOCÊNCIO

Resumo

O presente trabalho problematiza a animação “A Cidade dos Piratas” (2018), dirigida por Otto Guerra e estreada pela cartunista Laerte Coutinho, que encorpa em tela questionamentos acerca de seu processo de transgenerificação, da adoção de uma identidade travesti para si e sobre a crítica/desconstrução das masculinidades presentes em seus trabalhos desde a década de 1980. Numa sucessão de camadas dispostas em uma bricolagem de histórias em quadrinhos, montagens de roteiros, entrevistas, dilemas das protagonistas e contextos históricos de colonialidade de poder, do ser, da natureza, do gênero e do saber no Brasil, a animação é um artefato produtor de uma pedagogia cultural a ensinar modos de ser, estar e de pensar o “cistema-mundo” patriarcal – colonialista – capitalista, especialmente, com o recente cenário de escalada fascista e neoconservadora nos territórios políticos e sociais do país. Ancoradas em teorizações pós-estruturalistas e no referencial pluriepistêmico (trans)feminista e decolonial, analisamos a animação, destacando como uma “pedagogia pirata” pode abalar os códigos normativos da produção de saberes, discursos e práticas impostos aos corpos, performando também uma genealogia diferenciada para as sexualidades e os gêneros das pessoas a partir da (des)construção de um “novo” corpo físico, mas também epistemológico, de Laerte.


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DOI: http://dx.doi.org/10.18542/rmi.v16i26.11140

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